Carta aberta aos velhos companheiros do Partido Comunista Português, a propósito da rejeição pelo P.C.P. do voto de censura à condenação dos activistas angolanos.
Recordados companheiros de luta:
Sei que a minha idade deveria ser suficiente para me evitar surpresas
amargas devidas ao comportamento dos Humanos, (sobretudo quando
colectivas).
Normalmente aceito com relativa mas forçada
compreensão que as gerações que nos sucederam e nunca sofreram na pele e
na alma a frustrante raiva da impotência, face ao aviltamento imposto
pelos usurpadores dos poderes dos Povos, adoptem atitudes branqueadoras,
de comportamentos anti-democráticos quase sempre justificados com
“legítimos interesses” a defender, sejam eles individuais ou de grupo.
Em essência, é a aplicação prática da velha e dizem que “sábia” regra de ser forte com os fracos e subserviente com os fortes.
Compreender, compreendo, mas não posso concordar, nem aceitar, nem
sequer justificar com pretensas consequências maléficas das crises dos
tempos.
Companheiros e camaradas de luta. Mais de luta que de
ideologia. Que têm feito vocês? Que têm ensinado aos novos dirigentes do
vosso partido, outrora internacionalista e solidário com as lutas dos
oprimidos de todo o Mundo?
Sim Camaradas, porquê se apagaram tão depressa as vossas memórias?
Porque negaram os relatos das vossas experiências, aos jovens ou menos jovens que hoje falam em vosso nome?
Porque deixam calados os milhares de exemplos de homens e mulheres das
mais diferentes nacionalidades, que estiveram ao nosso lado na luta pela
nossa LIBERDADE, oferecendo tudo e até, em alguns casos, a sua própria
liberdade e vida.
Estão de acordo em renegar esse passado? Estão
de acordo em apagar da História das lutas pela dignidade Humana, os
milhares de exemplos, de companheiros e camaradas, Comunistas,
Socialistas, Democratas ou simplesmente Humanos, que a todos nós nos
acolheram e por nós se manifestaram nas ruas das capitais da Europa e do
Mundo?
Que moral é essa, que continua a ser manipulada para justificar o injustificável.
Será por uma questão de hábito?
As relações de absoluta dependência orgânica, material e estratégica,
que caracterizaram o passado, não existindo no presente, não podem ser
aceites como bodes expiatórios de comportamentos que denigrem e ofendem a
memória dos companheiros internacionalistas (de todos os grupos) que
tanto nos apoiaram. Hoje, quem vos condiciona, companheiros?
Possivelmente… quem querem defender?!
Quando em vosso nome se proclama:
“- O P.C.P. reitera a sua consideração de que cabe às autoridades
judiciais angolanas o tratamento deste ou de outros processos que
recaiam no seu âmbito. A rejeição do presente voto por parte do P.C.P.
emana da defesa da soberania da República de Angola e da objecção da
tentativa de retirar do foro judicial uma questão que a ele compete
esclarecer…”
- Então camaradas, é verdade ou mentira que: para
serem coerentes com a vossa posição de hoje, em linguagem dos tempos
áureos da vossa gloriosa luta contra a ditadura pró-fascista, vocês, em
situação parecida com a actual ,diriam, qualquer coisa do género?:
- “O P.C.P: apela a todos os governos e povos democráticos de todo o
Mundo para que em defesa da soberania da República Portuguesa não nos
apoiem, nem interfiram na nossa luta pela liberdade e democracia. Favor
não interferir com os métodos e decisões do sistema judicial português,
nem denunciar internacionalmente a tortura e absoluto desrespeito pelos
direitos fundamentais dos democratas portugueses que se opõem há
ditadura.”
É companheiros… justificar os nossos compromissos, com
os maus exemplos de outros, é coisa antiga, não pode fazer parte dos
princípios orientadores duma nova maneira de fazer política.
Saudações solidárias
Camilo Mortágua
Abril de 2016